nov 2 2018

Deixe fluir

Aos 14 anos, inconscientemente, decidi que seria jornalista. Escrevia bem e tinha uma intuição de que a minha escrita ajudaria o universo (ou o microcosmo). Aos 16, fascinado pelas boas produções cinematográficas e novelas de Janete Clair e Benedito Ruy Barbosa, ambicionava tornar-me roteirista. Apesar da certeza, tive um experiência como assessor de imprensa, em uma produtora de São Paulo, que diminuiu minha fé. O texto, que para mim é intocável, foi rasgado. Surrado. Desisti. Escrevi até 2012 e parei. Passei quase 7 anos (um ciclo) somente no papel de observador. Não escrevi uma linha jornalística sequer. Só bobagem. Até que, vivendo numa cidade no interior, um semáforo quebrado começou a chamar minha atenção. E acendeu a luz vermelha, porque aquele equipamento estava avariado há anos, mas o povo não reclamava. Senti que queria escrever uma reportagem sobre aquilo. Na hora vieram alguns pensamentos: “Vai arranjar confusão com os políticos locais”, “Vai se estressar e ficar com raiva das coisas erradas, não vai fazer bem para sua saúde”, “Não vai ganhar nada com isso, nem dinheiro”, “Sua segurança vai ficar comprometida”, “Nenhum editor de jornal local vai publicar sua matéria”. Só negativismo. Educadamente, respondi assim, a esses obsessivos pensamentos: “Dane-se”. Para não dizer outra coisa. E fluiu.


set 10 2018

Quem procura acha

Felício vivia reclamando. Reclamava do irmão, reclamava do pai, reclamava da mãe, reclamava do chefe, reclamava da mulher que não tinha. Reclamava que não tinha emprego, reclamava do carro que quebrava todo dia. Reclamava da profissão que escolheu, reclamava que estava gordo e com colesterol alto. Reclamava que não corria como os amigos faziam, mas não sabia o por quê. Reclamava da vida. E reclamava de Deus. Pensava que o Criador não dava as mesmas oportunidades que as dos outros. Essa convicção permaneceu na mente do rapaz infeliz até o dia que conheceu Carolina, uma típica mulher brasileira. Negra e contente, mudou Felício. Resistente, ele demorou a perceber que não era um injustiçado. Carolina, professora batalhadora, aos poucos mostrou ao amigo, um branco quase inerte, que era ela que sofria, no dia a dia, humilhações diversas. Mas nunca reclamava. Protestava. Felício deu a volta por cima e mudou, agora ele luta. O bom combate o deixou contente. Agora enfrenta a injustiça, a favor dos indefesos. Começou a mudar o Brasil. O seu Brasil.


set 9 2018

Você quer viver dessa maneira?

Norval está convencido de que foi esquecido por todos. O melhor amigo esqueceu da vaga de emprego que havia oferecido. A mulher mais bonita da empresa esqueceu que gostava dele e jogou o copo de café na sua cara. O amigo de infância combinou um rolê, mas esqueceu de ir. Começou a se sentir sozinho. Ideias negativas, de isolamento, ocuparam sua mente. A série preferida sugeriu que mudasse as situações e as personagens, para não cair no esquecimento do mundo. Resolveu mudar seu mundo. Refundou sua ideologia, suas ideias, reviu sua visão das coisas. Levantou, pegou a caderneta, a caneta. E partiu, para entrevistar o povo na rua. Escreveu e publicou. O homem duplo não existia mais. Agora aquele era ele, ele essencial. Você sabe quem você é. Você sabe o que aconteceu com você. Você quer viver dessa maneira?


set 5 2018

Disciplina

O mentor do médium Chico Xavier, indagado pelo discípulo, disse que, para atingir os objetivos desta vida, devemos ter disciplina, disciplina, disciplina. Esses três conselhos foram a base da produção intelectual do maior espírita brasileiro de todos os tempos. No momento daquele aconselhamento, Chico temia não estar à altura do compromisso de psicografar a primeira leva de 30 livros. No total, ele produziu mais de 400. Eu tenho uns cinquenta deles. Emmanuel garantiu que não sucumbiria, se ele se dedicasse ao trabalho, ao estudo e ao esforço do bem. Adquirir a disciplina é importante para manter a unidade, a constância dos trabalhos. Disciplina e planejamento andam de mãos dadas. Se não riscar organograma, a entrega fica comprometida. Se fazemos jobs com prazo na área profissional, devemos seguir o exemplo no campo pessoal. Planejar e não apenas projetar, “sonhar”. Depende da gente. A capacidade de planejar determina a realização. Fé não basta.


set 4 2018

Nico, 1988

O filme em cartaz no Belas Artes leva a vida da cantora à sala de cinema. Artista com seus maiores defeitos – como o vício em heroína – e maiores qualidades – como o amor ao filho e à música. Aquela busca pela perfeição e o aparente descontrole do presente dá ao longa-metragem um toque a mais que outros sobre estrelas do show business. O filme não é nem um pouco didático. Se quiser descobrir a história de Nico, vá ao Google. No cinema, você vai ver um pequeno extrato da essencialidade dela. Prova disso é o fim do filme. Sugiro que não pesquise sobre essa pop star sem antes assistir à essa humilde, porém verdadeira, obra cinematográfica. A figura do produtor, a racionalidade rejeitada, tem peso preponderante no processo de reflexão. Nem tudo vale a pena quando a vida é pequena.


ago 28 2018

Tempo flow

Raí tem problema com o tempo. Não tem a tal pontualidade britânica, perde a hora para acordar, perde avião e ônibus, se atrasa em encontros, vive com relógios atrasados. Raí tem problema com o tempo. Dorme muito, passa o tempo fazendo coisas sem sentido e sem objetivo. Palavra cruzada, Netflix, quebra-cabeça, novela das seis. Perde tempo. Resolve mudar. Medita e ora. Medita e ora. Medita e ora, nos momentos de folga. Sente melhor o tempo. Passa a aproveitar o tempo. Depois, corre. Corre, corre. Medita, ora, corre. Até que decide dançar. Medita, ora, corre e dança. Come menos e melhor. Come pouco. Come quase nada. Sereno, volta a escrever. Escreve, escreve, escreve. E medita e ora. E corre e dança. O tempo deixa de ser um problema. Preenchido com alegria, virou flow. Tempo flow.


ago 3 2018

Atenção em cada ação

Hoje é 3 de agosto. Horário: meio-dia e 55 minutos. Cidade de São Pedro, Estado de São Paulo. Este é o agora. Apesar da realidade estar à minha frente, com imagens atualidadas constantemente pelos circuitos formados pelos olhos e cérebro, um mecanismo insiste em funcionar para atrapalhar o dia a dia: a memória, que tira o foco do momento presente e leva-nos ao passado. Quando não volta, projeta para o futuro, gerando aquilo que a ansiedade antecipatória. A memória provoca um movimento elástico, de vai e volta, que não para no meio – no segundo atual, neste instante – e cria fascinação, saudosismo, os chamados “sonhos”. Aquela namorada com quem era feliz e magoou não existe mais. Aquele emprego que adorava e trocou por outro não existe mais. Aquele estágio dos sonhos que deixou para trás não existe mais. Tudo não passa de imaginação, que atrapalha a caminhada. Quem espera que a vida seja feita de ilusão pode até ficar maluco e morrer de solidão, prenuncia uma música dos Titãs. Para saber viver, e ensinar a viver, uma amiga já em outro plano há 25 anos, por acaso minha avó, em certo ponto do tempo escreveu-me: “Querido neto, o amor do Pai Criador é tão grandioso que permite que o amor que temos uns com os outros nunca se perca e sempre permaneça no coração, dando-nos oportunidade de alegrar com as alegrias dos amores do nosso coração, como também sentir as tristezas, as mágoas dos entes queridos e, também, Rodrigo, temos a oportunidade de cultivar bons pensamentos, que sempre clareiam e dão forças para viver com mais atenção nas ações diárias, não esquecendo jamais que cada um é o artista da própria vida”. Ela encerra a mensagem, aconselhando-me a distribuir “as luzes da compreensão, da coragem e da confiança, silenciosamente”. Sabedoria que comove. Temos que aprimorar a habilidade de farol, de cultivar a atenção no momento presente, neste instante, com amor e alegria. Criar o roteiro da vida com criatividade e misericórdia. Nada vale mais que amar a si e ao próximo. Daí a necessidade de vigiar e amar. O caminho é esse. Sigamos, com as luzes ligadas.


jun 13 2018

Real, muro e não real

Ela tem 23 anos. Redatora transmídia, trabalha dia e noite. No horário diurno, cria textos para uma grande revista semanal de notícias. Trabalha no editorial de política. Faz textos sobre casos de investigação anticorrupção, prefeituras e governos. Em casa, à noite, faz o contrário. Inspirada em casos reais que vê na tela da televisão, visita pessoas carentes na rua, entrevista cada um desses excluídos sociais, volta para casa e escreve as histórias deles. De dia, encara téte-à-téte os poderosos. De noite, desvenda frente a frente as maiores vítimas desses poderosos. De dia, escreve textos com o ângulo da elite. De noite, apura o drama de quem vive a realidade das ruas, com a visão de quem não está nem no poder nem no limbo da história. Ela sente-se em cima de um muro, ela simplesmente observa os exploradores e os explorados. A cada dia que passa, sente essa dicotomia mais intensa. Não entende como o mais forte despreza o mais fraco. Então, resolve passar para o lado dos pobres. Sai do apartamento alugado em Higienópolis e vai viver na favela. Vivencia uma realidade mais nítida: crianças desnutridas, esgoto a céu aberto, segurança controlada pelo tráfico, fome. Por outro lado, mais união, solidariedade, fraternidade. Definitivamente, deixou o muro para entender a língua do povo. Agora, transmite a língua do brasileiro verdadeiro. Divulga essa gente. E, incrivelmente, sente mais harmonia, mais amor na alma.


mai 28 2018

Despedidas

Lara é uma neta exemplar. Trabalha, estuda, ajuda pai, mãe, avô e avó. Secretária bilingue de uma empresa transportadora, destina o maior bolo do dinheiro para a família. Carinhosa, sempre teve o sonho de conhecer alguém e casar. Um pouco triste, amargurada por ter sido abandonada pelo noivo, ainda nutria esperanças de unir seus trapos com os de algum homem bom. Até que Seu Odair fica doente. Moradora de Santos, Lara se desloca até São Paulo, para se despedir do querido parente. Ele sempre torceu pela menina, desde criança. Amoroso, dava dicas para ela ser feliz. Lara se aproxima do leito e vê o avô em fase terminal. Ela sussura no ouvido do velho: “Vô, não esqueci do segredo. Estou pensando positivo. Cultivo minha fé a cada segundo. Sou feliz. Sou vitoriosa, porque tenho o senhor a meu lado. Obrigado, vô. Eu te amo muito”. Ele, de repente, sorriu. Alegre, ela correu para o Metrô, com receio de perder o ônibus. A greve dos caminhoneiros a preocupava. Não podia deixar de trabalhar. Na estação Cqmpo Limpo, conheceu um jovem, que a encantou. Ele a orientou sobre como chegar a seu destino e ouviu pacientemente sua história. Mas nada disse. Misterioso, o rapaz. Chegou a estação dela, agradeceu. Saltou do trem. Esqueceu dos contatos. Ficou na memória o brilho daqueles olhos e a esperança de encontrar seu príncipe. A porta fechou e ele se foi. Outro dia, quem sabe.


mai 23 2018

Objetividade

Jandir era líder, erudito, pouco objetivo, elucubrava em prosa qualquer. Quando traía o camarada, dava tapinhas no ombro da vítima. Levei dois, logo depois da demissão sem justa causa. Bete era rígida, muito direta, no trabalho e nas conversas de bar. Essa, sim, leal até o último segundo. Ela se foi, mas não deixei de admirá-la. Edson era inteligente, mas não reconhecia forasteiro, gente que não era de sua confiança. Falava demais, mas agradava a equipe. Lamentei o pouco convívio, veio a crise, ele arranjou desculpa pra sair. Cristian era sério e altivo, tinha acento de voz. Roni tentava envolver, mas era envolvido. Deixava se levar pelos aliados puxa-sacos de plantão. Detestado, imaginava ser um empreendedor admirado. Pouco conciso, cínico, não vi mais. Marcelo virou youtuber. Virou a mesa: adotou um estilo irônico e debochado. Fala demais. Mas pensa antes de falar. Nonato foi o cara mais objetivo que conheci. Deliberava com apenas uma ou duas palavras. Exigente e ríspido, ordenava e seguia em frente. Não entendia aquela sobriedade absurda. Conversamos pouco. Marina fechava a revista com alegria. Natural e espontânea, sempre foi muito admirada e respeitada. Era honesta, sincera. Somos amigos até hoje. Ela é objetiva nas reuniões, fora delas é tagarela! Larissa era séria e tinha um modo de ser muito peculiar. O sorriso dela é lindo, aberto, escrachado, mas sua objetividade severa ofusca o brilho de seu talento. Márcia fala tudo que pensa, não mede palavras. Mas o medo do patrão poderoso deturpa a sua conduta e as relações. Denilson era um objetivo editor. Fomos leais um com o outro. Mas o show tinha que continuar. Ator perdido no palco é carta fora do baralho. Com poucas palavras, magoou. Objetividade maligna. Depois veio Maurício, que tinha objetividade certeira, convicta. Mas tensa. Hoje aprendeu a voar, sentindo as vantagens da leveza de ser. Depois apareceu Bentão, grandalhão gente boa, generoso. Aprende essa estranha habilidade da objetividade com a equipe, dia a dia. Aprende junto. Estou nessa. Sou um aluno dessa disciplina. Assim como Bentão e alguns dos meus ex-chefes citados acima, vivencio os exercícios da vida, com suas provas, nesta jornada da evolução. Guardo um pouco de cada um, rumo ao objetivo: ser objetivo.