nov 22 2017

Ponto de decisão

Quando Eduardo viu que seus planos mais importantes minguaram, ele perdeu o controle de seu destino. A carreira de roteirista foi pelos ares, depois que a mulher do magnata o ignorou. Apesar do portfólio razoável e o talento para a coisa, o repórter sucumbiu. Perambulou pelas ruas e vielas da cidade, procurando um lugar ao sol. Resistente à mudança, preferiu fingir que nada alterou, que os tempos não haviam mudado, que ainda tinha chances de obter sucesso por algo que ficou arquivado no passado. Obcecado pelas glórias passageiras que passaram, não enxergava as chances factíveis do momento presente. Mulheres, empregos, jobs interessantes, cursos e atualizações recusados, oportunidades perdidas. O analista, impaciente, indaga: “O que você quer? Repito: O que você quer? Responda logo”. Atônito, o jovem não disse uma palavra. Teve vontade de falar várias coisas: livro vermelho, roteiro de aventura, crônica baseada no real, artigo literário, reforma moral, curso de redação e revisão, estudar para concursos. Colapso. Confusão. “Deixa para a próxima. O tempo acabou. Entro em férias e volto só daqui a três semanas. Pense a respeito”, vociferou o psicanalista exigente. Cumprimentou o discípulo de Freud e, após vagarosos passos, o escritor aproximou-se da secretária e murmurou: “Reforma”. Ela fez cara de espanto e perguntou: “O que disse?”. Repeti a palavra com outras: “Avise o doutor que o paciente Eduardo passou este recado. Fechei para reforma. Reforma moral. Não volto mais”. A funcionária preocupou-se. Ligou para o analista, que ligou para o jornalista, que mandou o analista a P.Q.P. Um tentou se reconciliar com o outro, mas o outro não perdoou aquele um. Não se conformou com o discípulo de Freud. Perguntar o que ele quer é o fim dos tempos. Indignado, decidiu conhecer a pessoa que resolveria o problema do seu destino: ele mesmo.


nov 16 2017

Barbitúrico

Falava demais, me irritava demais. Lembrei de um remédio receitado pela Dra. Cacilda. Um barbitúrico, com nome de aplicativo de mensagem. Acabei com a Sheila, por WhatsApp. Disse ao Ruan que o trabalho estava uma bosta. E me declarei à psicóloga. Eu me transformei em um Mr. Sincero e estava no rumo de um “sincerocídio”. Decisão firmada, assim que cheguei em casa, abri a caixa do remédio. Tomei um comprimido às 23 horas, com a esperança de que minha euforia cessasse. Com a vontade e fé de que parasse de falar… Dormi. Falava no púlpito a milhares de pessoas. A plateia não reagia, nem com sorriso, nem com aplauso, nem com vaias. A plateia estava imóvel, praticamente morta. No final, uma amiga de Sorocaba (uma repórter loira e simpática) veio até mim, mas passou reto. Cumprimentou uma pessoa atrás de mim e fingiu que não me conheceu. Acordei. Com muita dificuldade. No dia, a plateia real me ignora também. Todos me ignoram. Euforia zero. Depressão a mil. Até que, de repente, a diretora sorri e pisca. Depressão zero, euforia a mil. O remédio não funcionou. Comecei a beber muita água, para dissolver o efeito da droga. Conforme o efeito passa, as pessoas me enxergam. O remédio era um feitiço, que virou contra o paciente. Voltei a poder a falar. Mas não falei. Voltei a poder agir. Mas não tomei nenhuma atitude. Dias depois, o grupo fez comentários a meu respeito. Soube por um infiltrado de minha confiança. Falaram que perdi aquele comportamento ousado e invasivo e adquiri as qualidades de um trabalhador discreto e equilibrado. Falaram mais… que agora sou distante e excessivamente reservado. Como é? Excessivamente? Não quero saber. Melhor excessivamente quieto do que excessivamente eufórico (chato). Resolvi me distanciar do grupo. E de todos. Agora escrevo sem parar sobre meus episódios maníacos e depressivos do passado. Agora sou reservado, excessivamente. Sem remédio. Sem as pessoas. Comigo apenas, confiante sempre.


nov 13 2017

Levitação

O relógio toca, toca. Levanto com morosidade. Lembro que é dia daquilo. Visto a bermuda, camiseta, meia e tênis. Tiro o RG da carteira e enfio no bolso. Ansioso, pego um pedaço de pão. Minha refeição no café da manhã resume-se àquilo. Saio de casa e vejo o sol iluminando o domingo. Sem treinar desde que comecei a trabalhar na agência (maio), ou seja, seis meses, penso: “Isso é uma loucura”. Mas sigo em frente a passos largos. Passo pela arcada da pista de atletismo, coloco a camisa P que me sobrou. A organização esqueceu que meu tamanho é GG. Mas estranhamente ignoro a lambança. Extremamente calmo, prendo com alfinetes o meu número 164. Aqueço e depois me posiciono. Dada a largada, volto a sentir o êxtase de correr. Primeira volta, 8’30″, segunda, terceira, quarta e quinta, média de 10’15″. A última volta: não percorrida. Erro de avaliação. Percorri cinco, não sabendo que eram seis. Mas, mesmo assim, fiquei satisfeito, porque não suportava mais. Meu físico sedentário até completaria a sexta volta de um km e poucos metros, mas eu me arrebentaria todo. Com o kit de frutas na mão e o suco na outra, desabei no gramado. Comendo como um louco, alucinado com a corrida, vejo a aproximação de alguém. Um senhor de 73 anos pede licença para falar. E sugere: “você precisa de inhame”. “Como?”, pergunto ao velho. “O inhame vai resolver esse seu problema, no final da prova. Essa sensação de fadiga. Você teria uma câimbra, se continuasse”. Simpático, recomendou bater o alimento com banana e leite no liquidificador. Agradeci. Fiquei mais alguns minutos. Calculei meu tempo total, percorridos 7,5k: 64’00″. Tempo medíocre. No ponto de saída do local do circuito, o menino do ponto de apoio recolhia os copos de água. Ele me incentivou a chegar ao final. Cheguei e falei: “Cara, não consegui. Mesmo assim, obrigado pela força”. Alegre, retrucou: “Você levantou da cama e veio. Chegar aqui já foi uma vitória”. Fiquei sem palavras. Ele tem toda a razão. Minutos depois, deitei, dormi. No sonho, voltei a correr, até flutuar, parar no ar e levitar. Valeu a pena.


nov 9 2017

Devolução

Meu celular não recebia sinal. Fiquei refém do táxi. Tive que pedir um. Entrei no carro. Estofado sujo. Cheiro de cigarro. O aplicativo 99taxis do taxista começou a apitar. “Oi, oi. Esperei você por quinze minutos. Espere aí”, disse o taxista. E emendou esta: “Moço, tenho que devolver o senhor”. A cliente atrasada exigiu a presença do taxista, ameaçou reclamar com o app. Ele deu meia volta e fez o que disse: devolveu minha pessoa ao ponto. O gerente se desculpou: “Isso não pode acontecer. Passageiro não se trata desse jeito. É taxista de aplicativo”. Meu histórico com a 99taxis não era dos melhores. Lembro que nunca deram a minha primeira corrida grátis (promessa de campanha). Sempre que tentava chamar um carro, o aplicativo girava, girava, e me enrolava. Nunca vinha táxi. E quando vem, sou devolvido. Na próxima vez que acionar o 99taxis, vou pregar uma placa na camiseta com os dizeres: “Não aceitamos devolução”. Naquela noite, eu fiquei muito mal, triste, com autoestima baixíssima. Lembro que desisti dos táxis. Fui para o ponto do ônibus, em frente ao Shopping Cidade Jardim. Com ódio dos aplicativos. E de mim.


nov 8 2017

Carceragem

Escrevia sem parar, sob a supervisão da gerente. Ela queria o texto para o final do dia. Já são 9h20 da noite. Desde as 9h45 eu redigia. O cliente pediu a carta no início da tarde, mas fez alteração encima de alteração. Eu, confuso, tento corrigir o texto alterado diversas vezes. Um quebra-cabeça. Tento juntar o que o cliente pediu com o pouco de coerência da campanha. Agora, reescrevo o quarto texto enviado pelo cliente e o quinto reescrito pela gerente. Sigo, concentrado e atordoado. Confiro meu saldo, o dinheiro não caiu. Agora, 11h15. O cliente não aprova. O dinheiro não cai. 11h45. O cliente resolve jantar. O dinheiro não cai. A empresa avisa por zap-zap que o pagamento vai entrar na conta só na segunda. E fim de papo. Bate meia-noite. Tontura, paranoia. O cliente aprova o texto. Vou comer uma rabada. A morena da PUC aparece no meu Messenger. E pergunta: “Por que você sumiu?”. Respondo sem pensar: “Estava na carceragem”. Caminhando pelas ruas, cheguei em casa. Dormi. O sono não liberta o meu espírito aprisionado. Dormi para a morte. O dinheiro entra na segunda e vai para as custas do funeral. A morena envia outro zap-zap: “Você sumiu de novo, bonitinho. O que aconteceu?”. Ficou sem resposta.


nov 7 2017

Jornal da Plataforma

Pego o jornal Estado Nacional e leio a manchete: “Genivaldo Belarmino cotado para candidato do Partido”. Ligo o computador, a tela acende com o clarão e as inscrições: “Genivaldo visita obras da SP-123″. Na TV, adivinhe? “Genivaldo anuncia medidas para melhorar a segurança”. Chateado, entro no carro e resolvo percorrer a marginal. Ligo o rádio: “O governador Genivaldo anuncia 100.000 casas e alegra os sem-teto com festa e cestas básicas”. Vejo um outdoor gigante na beira da pista, com fotografia de Genivaldo Belarmino acenando para o povo. Num lampejo, decido estacionar o carro e entrar na estação. Gentilmente, pego o Jornal da Plataforma. Manchete: “Genivaldo Belarmino libera celular em escola”. No miolo: “Polícia de Genivaldo Belarmino prende assaltantes em agência dos Correios”. Embriagado por aquela overdose de informações, perdido, invadido, tonto, fui para o Partido. Para reclamar, protestar. Dentro do Partido, sinto-me embriagado. O silêncio do local proporciona um estado de leveza à minha alma, antes poluída por informações belarminas. Ali dentro não vejo propaganda do Grande G. Determinação do presidenciável proíbe propaganda partidária dentro de seus domínios. O Partido é minha pousada. Fico ali, com a militância silenciosa, meu resort. O uso de televisão e jornal é proibido dentro daqueles domínios, para não estressar os aliados com o excesso de anúncio belarmino. O estatuto orienta a mídia belarmina somente fora dos diretórios. Programa de saúde mental planejada pelo próprio Grande G. No interior do Palácio, a mesma determinação, para preservar os fiéis servidores. Aos infiéis, propaganda partidária maciça. Uma garota simpática aproxima-se e, com absoluta ternura, faz o convite providencial: “Deseja filiar-se? Ganha o direito de ficar aqui pelo tempo que quiser”. Sem titubear, levanto e abraço a mulher, chorando desesperadamente: “Quero! Quero! Quero!”. Livre, solicito o reboque do meu carro para o estacionamento do Grande Partido. Livre como um pássaro, em voo, nem para a direita, nem para a esquerda. Trajetória retilínea.


nov 6 2017

Blade Runner 2097

Eu acordei cedo, levei minha cachorra para passear. Nenhum outro animal olhou para ela. Nenhum outro dono ou dona olhou para mim. Todos robôs. No ponto de ônibus, todos olhavam para o horizonte, ninguém se entreolhava, agora nem com medo de assédio, mas não sentia-se mais vontade de saudar ou comunicar, tampouco ajudar ou alegrar. Não havia mais vontade de saber do outro. As criaturas cibernéticas olhavam para o transporte, que chegava. Dentro do veículo, os passageiros contemplavam as paisagens móveis da janela – avenidas esburacadas e mal-conservadas, sujas, robôs ao relento, ar com aspecto esfumaçado, poluído. Os olhares imóveis denunciavam o coração gélido de cada um. Transformados pela sociedade, não conseguiam mover o foco. Nem para si mesmos olhavam mais. O direcionamento era mais frio, voltado para o nada. Porque nada mais importava. Tudo perdera o sentido. Chegava o prédio do trabalho. No elevador, membros do mesmo departamento evitavam contato. Percebia que a mulher mirava seu olhar copiosamente, implorando a recíproca. O homem, seu colega de baia, olhava compulsivamente (e propositalmente) o seu próprio tênis, e assim boicotava o olhar revoltado da moça. Entre os dois, entre aquela batalha, bateu-me um desespero incomum. Com vontade de gritar, tirei meu olhar da moça, e do rapaz. Fechei os olhos e fiz o que restava-me fazer naquele momento cibernético: orei. As portas se abriram, saíram um para cada lado. Tentei conversar com pessoas, mas vivemos em um tempo em que qualquer contato é perigoso. Não queremos trocar experiências, negamos qualquer aproximação. O olhar contemplativo reina. O ser humano deixou de confiar no outro ser humano. Sorrisos apenas com os pixels dos televisores. Na saída do complexo de produção, procurei alguma conexão. Não achei. Encontrei a vendedora da loja de tênis, com quem tive contato imediato há alguns instantes. Ela passou reto, concentrada na chegada do ônibus 5051-T. Esbarrei meu ombro no dela. Não percebeu, subiu no veículo e seguiu para seu destino. Fiquei ali, na beira da marginal, com o olhar fixo nos carros que passavam a mais de 200 km/h. Olhar contemplativo, desesperado. O despertador toca, eu acordo cedo. Levo minha cachorra para passear.