jan 30 2018

Discurso vs. ação

“Brasileiros e brasileiras, eu fiz. Farei. Digo que fiz o que não fiz. Brasileiros e brasileiras, votem em mim”. Daqui a oito meses, nós eleitores veremos um novo ou uma nova presidente. Produto do horário gratuito de rádio e televisão (propaganda eleitoral), que revelou-se uma verdadeira farsa desde a época da reabertura (Fernando Collor) até o mais recente pleito, cuja plataforma a ex-presidente Dilma Housseff esqueceu de colocar em prática. Em todo caso, devemos pensar no momento, no instante, no agora. Proponho relacionar os ditos cujos, todos os pré-candidatos e, depois, candidatos, e anotar tudo o que eles falam para os jornalistas e os seus programas gratuitos, pagos através de renúncia fiscal. Proponho a elaboração de um documento, devidamente protocolado em cartório. Proponho a publicação desse documento de metas e promessas, publicadas pelo próprio vitorioso, com vistas a enganar a população para elevar sua quadrilha ao poder. Proponho mover uma ação civil pública no sentido de acompanhar o governo do dito cujo. A cada passo em falso, diferente daquela meta ou promessa difundida no período da farsa eleitoreira, proponho um novo processo. Um processo atrás do outro, de modo que facilite aos meios de comunicação desnudarem a farsa. Proponho o impeachment do dito cujo caso não cumpra o que disse durante a farsa eleitoreira. Proponho que os processos impeçam que o discurso vença a ação, que impeçam que a mentira derrote a verdade. Proponho que, se possível, a imprensa elimine o mal pela raiz. Que durante a farsa eleitoreira alertem os ditos cujos de que estão sendo monitorados e que o processo será infalível. O processo eliminará a farsa. O processo eliminará o discurso mentiroso. A ação efetiva prevalecerá. Mas para o processo funcionar, depende de um aliado fundamental: o aliado vendado, a Justiça. Corrompida, não barrará o avanço dos corruptos. Sem a Justiça, avançarão ligeiros ao poder, como ratos.


jan 24 2018

Ouvir faz bem

Lembro que a dúvida sempre rondou Eduardo. Quando criança, perdeu-se no zoológico. O professor esqueceu o menino no banheiro. OUVIU a orientação dos pais, semanas antes, de que deveria esperar no mesmo lugar, para ser achado. Recordou daquilo no momento de pânico e resolveu ficar ali. Minutos depois, o mestre apareceu, sorriu e desculpou-se. Na adolescência, quando surgiu a chance de sair com a menina mais bonita da classe, lembrou da sua supernamorada, uma estudante exemplar. OUVIU de sua mãe que o valor da lealdade não tem preço. Ligou para a parceira Marieta e teve uma inesquecível noite de amor com ela. Ignorou a tentação. Na juventude, antes de escolher a profissão, o pai recomendou Administração. OUVIU o mesmo conselho da mãe Dona Maria. Escolheu Jornalismo, OUVIU a voz da emoção, ignorando a razão. Na meia-idade, nos últimos três anos, passava por vários esportes. Pulava de galho em galho, sem focar em um. Até que Miyagi sugeriu: “Faça natação, treine por dois anos, concentre-se”. OUVIU com atenção esse meu sábio amigo de descendência japonesa. “Depois, se quiser evoluir no condicionamento, pode fazer yôga para dar elasticidade e tratar a ansiedade”. OUVIU Miyagi e resolveu tornar tudo mais simples no dia a dia. OUVINDO as pessoas, a vida torna-se simples. Prestando atenção a cada instante, a cada gesto, a cada som e palavra do outro, a vida torna-se simples. A vida é simples, quando a gente ouve de verdade. Eduardo, um turrão teimoso, hoje vive melhor. OUVE mais e fala menos. Compreende mais e doa amor.


jan 16 2018

Novo 123

Sempre em virada fala-se no novo. No ano novo tudo será diferente, pensam. Mas depois que vira, vem a sensação de que tudo permanece como estava. O noticiário político, os casos de violência urbana, as brigas com a mulher ou namorada, o dia a dia da vida. Eduardo era um burocrata. Trabalhava, batia os carimbos e assistia à novela ou Netflix antes de dormir. Todo dia a mesma ladainha. Até que ele, um dia, recebeu uma mensagem vinda do computador. Assim que ligou o Mac, o sistema avisou: “Mudar 123″. Que ele interpretou como “mudar passo a passo”. No começo, não entendeu direito. Depois compreendeu que a máquina, aleatoriamente, comandava para comunicar que ele deveria iniciar um processo de transformação interna, conectada com a consciência de propósito e ao momento atual, tarefa mais difícil que mudar o estilo de roupa ou de profissão. Sutilmente, voltou a escrever crônica. Desabafa no papel tudo o que está indefinido no fundo da alma. Alinha com o que precisa ser reformado. Agora entendia o significado daquele recado. Estudou um pouco. Notou que faltava algo. Percebeu o óbvio: faltava o gesto. Logo abriu o armário e pegou duas latas de sardinha. Abriu a porta da casa e saiu, sem rumo. Perambulou pela cidade até chegar aos baixos de um viaduto. Dois homens habitavam o local. Sacou do bolso as sardinhas e estendeu a mão. Assustados, os necessitados aceitaram a doação. Conversou com eles por alguns minutos, transmitindo alguma dose de energia. Saiu dos baixos sujos, cheios de insetos, voltou para seu lar e pensou: “Algo tem que ser feito”. Mal sabe ele que algo ele fez.