fev 18 2018

Mundos

Ele cansou do mundo real, aquele que a maioria chama de Externo. A família, o trabalho, a academia, o casamento, a televisão, o tênis. Nada mudava. Queria encontrar o novo e vivenciar esse novo. Tomou uma decisão radical: rompeu com a mulher, com tudo. Resolveu inovar. Mudou-se para uma casa no meio do mato, sem água nem energia elétrica. Só coleta de esgoto, por fossa. Seis meses depois, descobriu um mundo novo. Prestava pouco atenção para ele: a maioria chama esse universo pouco explorado de Interior. Esse lugar tão difícil de chegar, na cidade grande. Tantas coisas distraem a gente: smartphone, YouTube, Netflix, telejornais, novelas, filmes, baladas, bares, influenciações diversas. O sujeito passou a meditar muito mais. A caminhada virou rotina. Aprendeu a contemplar (e ouvir) o ambiente. Sente melhor, pensa melhor. O contato com os outros, essencial, melhorou. Entre as atrações do Exterior, manteve o bom e velho telefone. Voltou a trocar experiências via voz, sentia falta disso. Toda essa mudança, que alterou a sua totalidade interior, começou numa tarde de domingo, pós-carnaval, absolutamente desgastado, quando percebeu o absurdo que se transformou: depois de mais de vinte horas em frente à televisão, entre séries e filmes, enxergou a si mesmo, de fora do corpo, inerte e imóvel, sentado no sofá. O elemento comparou aquela vida a uma outra, aquela outra Interior, em que caminha e medita. Concluiu que a mudança era necessária. E foi. Hoje, ele procura meios de divulgar a sua doutrina. Interior. De busca interior. Vislumbre de uma verdade, entre outras.


fev 1 2018

Tentou e dançou

O sujeito fazia de tudo para ficar zen. O amigo sugeriu orar. Ele orou. O chefe mandou-o fazer acupuntura. Ele submeteu-se à agulha do médico acupunturista. A melhor amiga recomendou yôga. Ele fez, em duas escolas, em duas épocas diferentes. Um esportista emprestou a raquete e fez propaganda do tênis. Embarcou na onda, não acertou o backhand, descobriu que a bolinha esvazia e desistiu. A personal trainer incentivou a correr. Correu, parou, correu, parou de vez, com o tênis novo que acabara de comprar. Voltou a nadar, depois de vinte e cinco anos parado. Irritado com a água e com a professora preguiçosa do clube, afastou-se. Começou a meditar. Participou de meditação em grupo, com Ma Amrita Keli. O verbo que melhor resume essa experiência: organizar. Saiu de lá com a mente organizada. Os arquivos arrumados, cada documento em sua gaveta certa. O que afastou sua mente daquele templo foi a falta de convicção de que aquela atividade era certa para ele. Algum tempo depois, ainda passou pelo consultório de um bruxo, seguidor de H’ Sui Ramacheng. Ele tentou direcionar seu foco para a área da “não mente”, mas não conseguiu. Os dramas seguiram em curso no campo do insconsciente. Finalmente, assumiu a monitoria dos cursos da Latino Escola de Dança. Durou só um dia. Um professor alto e exigente acabou com o aprendiz, disse que não servia para a função. Tudo muito passageiro. Até que um especialista em reflexologia, com sabedoria japonesa, deu a direção: “Focar em uma atividade possível”. Depois de ter certeza de que tentou e dançou, resolveu seguir em frente da forma mais simples possível: fazer algo que gosta. Toda manhã, depois das obrigações, desliga a mente – faz meditação. Duas vezes por semana, pratica natação. Curte a sensação de relaxamento que esse esporte dá. Lê textos edificantes, alguns cristãos e outros não. Esse foco nessa ação integrada – entre meditar, nadar e ler – inspira sua alma para novos desafios, diferentes caminhos, outras buscas incessantes, com serenidade.