mai 28 2018

Despedidas

Lara é uma neta exemplar. Trabalha, estuda, ajuda pai, mãe, avô e avó. Secretária bilingue de uma empresa transportadora, destina o maior bolo do dinheiro para a família. Carinhosa, sempre teve o sonho de conhecer alguém e casar. Um pouco triste, amargurada por ter sido abandonada pelo noivo, ainda nutria esperanças de unir seus trapos com os de algum homem bom. Até que Seu Odair fica doente. Moradora de Santos, Lara se desloca até São Paulo, para se despedir do querido parente. Ele sempre torceu pela menina, desde criança. Amoroso, dava dicas para ela ser feliz. Lara se aproxima do leito e vê o avô em fase terminal. Ela sussura no ouvido do velho: “Vô, não esqueci do segredo. Estou pensando positivo. Cultivo minha fé a cada segundo. Sou feliz. Sou vitoriosa, porque tenho o senhor a meu lado. Obrigado, vô. Eu te amo muito”. Ele, de repente, sorriu. Alegre, ela correu para o Metrô, com receio de perder o ônibus. A greve dos caminhoneiros a preocupava. Não podia deixar de trabalhar. Na estação Campo Limpo, conheceu um jovem, que a encantou. Ele a orientou sobre como chegar a seu destino e ouviu pacientemente sua história. Mas nada disse. Misterioso, o rapaz. Chegou a estação dela, agradeceu. Saltou do trem. Esqueceu dos contatos. Ficou na memória o brilho daqueles olhos e a esperança de encontrar seu príncipe. A porta fechou e ele se foi. Outro dia, quem sabe.


mai 23 2018

Objetividade

Jandir era líder, erudito, pouco objetivo, elucubrava em prosa qualquer. Quando traía o camarada, dava tapinhas no ombro da vítima. Levei dois, logo depois da demissão sem justa causa. Bete era rígida, muito direta, no trabalho e nas conversas de bar. Essa, sim, leal até o último segundo. Ela se foi, mas não deixei de admirá-la. Edson era inteligente, mas não reconhecia forasteiro, gente que não era de sua confiança. Falava demais, mas agradava a equipe. Lamentei o pouco convívio, veio a crise, ele arranjou desculpa pra sair. Cristian era sério e altivo, tinha acento de voz. Roni tentava envolver, mas era envolvido. Deixava se levar pelos aliados puxa-sacos de plantão. Detestado, imaginava ser um empreendedor admirado. Pouco conciso, cínico, não vi mais. Marcelo virou youtuber. Virou a mesa: adotou um estilo irônico e debochado. Fala demais. Mas pensa antes de falar. Nonato foi o cara mais objetivo que conheci. Deliberava com apenas uma ou duas palavras. Exigente e ríspido, ordenava e seguia em frente. Não entendia aquela sobriedade absurda. Conversamos pouco. Marina fechava a revista com alegria. Natural e espontânea, sempre foi muito admirada e respeitada. Era honesta, sincera. Somos amigos até hoje. Ela é objetiva nas reuniões, fora delas é tagarela! Larissa era séria e tinha um modo de ser muito peculiar. O sorriso dela é lindo, aberto, escrachado, mas sua objetividade severa ofusca o brilho de seu talento. Márcia fala tudo que pensa, não mede palavras. Mas o medo do patrão poderoso deturpa a sua conduta e as relações. Denilson era um objetivo editor. Fomos leais um com o outro. Mas o show tinha que continuar. Ator perdido no palco é carta fora do baralho. Com poucas palavras, magoou. Objetividade maligna. Depois veio Maurício, que tinha objetividade certeira, convicta. Mas tensa. Hoje aprendeu a voar, sentindo as vantagens da leveza de ser. Depois apareceu Bentão, grandalhão gente boa, generoso. Aprende essa estranha habilidade da objetividade com a equipe, dia a dia. Aprende junto. Estou nessa. Sou um aluno dessa disciplina. Assim como Bentão e alguns dos meus ex-chefes citados acima, vivencio os exercícios da vida, com suas provas, nesta jornada da evolução. Guardo um pouco de cada um, rumo ao objetivo: ser objetivo.


mai 21 2018

Repeteco

O homem insistia. Mas não era aquela insistência de persistência, de força, de fé, de cabra corajoso. Ele insistia no erro. Casou com a mulher errada. Anos depois, resolveu morar com outro cara. Separou mais uma vez. Conheceu outra mulher errada. E casou de novo. Separaram. Apareceu outro cabeludo e se encantou. Casou na Espanha. Não deu certo. No campo profissional, o sujeito foi serralheiro, mas quase serrou a mão do patrão. Motorista de ônibus, não parava nos pontos. Sem passageiros, a empresa não arrecadava. Demitiu o distraído funcionário. Na função de segurança, tinha receio de pegar na arma. No primeiro assalto, quase foi baleado. O ladrão resumiu o perfil do medroso guardião: “Seu cagão”. Demitido novamente. Refletiu sobre a vida e decidiu: tentaria tudo de novo, voltando ao que era antes. A ideia, estapafúrdia: conquistar a primeira mulher e voltar ao ofício de serralheiro. Conseguiu. As brigas com ela não demoraram a surgir. E a mão finalmente… Decepada. Dessa vez, a dele. Sem a velha aliança e sem a mão, decidiu seguir em frente. E não olhar para trás. Nunca mais.


mai 13 2018

Deixar para trás

Nada como caminhar e deixar o que passou para trás. Tudo aprendizado, tudo objeto de um baú de memórias. Até os dez anos, Rodrigo foi um menino alegre e brincalhão, inteligente e reseliente. Adolescente, sentiu aquelas sensações estranhas de qualquer depressivo fóbico. Jovem, amou, mas a instabilidade afastou seus amores. Adulto, aprendeu a lidar com um mundo desigual e injusto, onde a competitividade disputa espaço com a solidariedade. Volúvel, demorou para perceber que seu maior propósito é estar. Estar disponível para o outro, ajudar com o que tem e o que não tem. Sua maior frustração, hoje, não é a rejeição, mas, sim, a omissão. Sofreu com isso, sofreu com a frustração de imaginárias rejeições, sofreu também com reais omissões, de não ter ajudado no momento certo. Quantos homens trabalhadores, desempregados, ganhando a vida, cachorros esfomeados passando em frente, com a esperança de serem resgatados, crianças vendendo balas no Metrô sem apoio do Estado e dos que se dizem dignos e sóbrios. Professores que ignoram alunos com nítida dificuldade, amigos que, em nome da religião, ignoram seus amigos. Ou até mesmo mulheres que transformam o batismo de seus filhos em uma festa fechada. Nada é mais legítimo agora do que limpar a casa para se viver melhor nela. Essa casa nada mais é que a casa mental. Colocar ordem é a primeira ação, não somente necessária, porém urgente. Organização para caminhar em paz, livre de obsessões e oportunistas. Com a paz plena, consciente, enxergando aquele limiar entre a razão e a emoção, entre a depressão e a euforia, entre o bem e o mal, entre o positivo e o negativo.