jun 13 2018

Real, muro e não real

Ela tem 23 anos. Redatora transmídia, trabalha dia e noite. No horário diurno, cria textos para uma grande revista semanal de notícias. Trabalha no editorial de política. Faz textos sobre casos de investigação anticorrupção, prefeituras e governos. Em casa, à noite, faz o contrário. Inspirada em casos reais que vê na tela da televisão, visita pessoas carentes na rua, entrevista cada um desses excluídos sociais, volta para casa e escreve as histórias deles. De dia, encara téte-à-téte os poderosos. De noite, desvenda frente a frente as maiores vítimas desses poderosos. De dia, escreve textos com o ângulo da elite. De noite, apura o drama de quem vive a realidade das ruas, com a visão de quem não está nem no poder nem no limbo da história. Ela sente-se em cima de um muro, ela simplesmente observa os exploradores e os explorados. A cada dia que passa, sente essa dicotomia mais intensa. Não entende como o mais forte despreza o mais fraco. Então, resolve passar para o lado dos pobres. Sai do apartamento alugado em Higienópolis e vai viver na favela. Vivencia uma realidade mais nítida: crianças desnutridas, esgoto a céu aberto, segurança controlada pelo tráfico, fome. Por outro lado, mais união, solidariedade, fraternidade. Definitivamente, deixou o muro para entender a língua do povo. Agora, transmite a língua do brasileiro verdadeiro. Divulga essa gente. E, incrivelmente, sente mais harmonia, mais amor na alma.