Blade Runner 2097

Eu acordei cedo, levei minha cachorra para passear. Nenhum outro animal olhou para ela. Nenhum outro dono ou dona olhou para mim. Todos robôs. No ponto de ônibus, todos olhavam para o horizonte, ninguém se entreolhava, agora nem com medo de assédio, mas não sentia-se mais vontade de saudar ou comunicar, tampouco ajudar ou alegrar. Não havia mais vontade de saber do outro. As criaturas cibernéticas olhavam para o transporte, que chegava. Dentro do veículo, os passageiros contemplavam as paisagens móveis da janela – avenidas esburacadas e mal-conservadas, sujas, robôs ao relento, ar com aspecto esfumaçado, poluído. Os olhares imóveis denunciavam o coração gélido de cada um. Transformados pela sociedade, não conseguiam mover o foco. Nem para si mesmos olhavam mais. O direcionamento era mais frio, voltado para o nada. Porque nada mais importava. Tudo perdera o sentido. Chegava o prédio do trabalho. No elevador, membros do mesmo departamento evitavam contato. Percebia que a mulher mirava seu olhar copiosamente, implorando a recíproca. O homem, seu colega de baia, olhava compulsivamente (e propositalmente) o seu próprio tênis, e assim boicotava o olhar revoltado da moça. Entre os dois, entre aquela batalha, bateu-me um desespero incomum. Com vontade de gritar, tirei meu olhar da moça, e do rapaz. Fechei os olhos e fiz o que restava-me fazer naquele momento cibernético: orei. As portas se abriram, saíram um para cada lado. Tentei conversar com pessoas, mas vivemos em um tempo em que qualquer contato é perigoso. Não queremos trocar experiências, negamos qualquer aproximação. O olhar contemplativo reina. O ser humano deixou de confiar no outro ser humano. Sorrisos apenas com os pixels dos televisores. Na saída do complexo de produção, procurei alguma conexão. Não achei. Encontrei a vendedora da loja de tênis, com quem tive contato imediato há alguns instantes. Ela passou reto, concentrada na chegada do ônibus 5051-T. Esbarrei meu ombro no dela. Não percebeu, subiu no veículo e seguiu para seu destino. Fiquei ali, na beira da marginal, com o olhar fixo nos carros que passavam a mais de 200 km/h. Olhar contemplativo, desesperado. O despertador toca, eu acordo cedo. Levo minha cachorra para passear.


Deixe um Comentário