Jornal da Plataforma

Pego o jornal Estado Nacional e leio a manchete: “Genivaldo Belarmino cotado para candidato do Partido”. Ligo o computador, a tela acende com o clarão e as inscrições: “Genivaldo visita obras da SP-123″. Na TV, adivinhe? “Genivaldo anuncia medidas para melhorar a segurança”. Chateado, entro no carro e resolvo percorrer a marginal. Ligo o rádio: “O governador Genivaldo anuncia 100.000 casas e alegra os sem-teto com festa e cestas básicas”. Vejo um outdoor gigante na beira da pista, com fotografia de Genivaldo Belarmino acenando para o povo. Num lampejo, decido estacionar o carro e entrar na estação. Gentilmente, pego o Jornal da Plataforma. Manchete: “Genivaldo Belarmino libera celular em escola”. No miolo: “Polícia de Genivaldo Belarmino prende assaltantes em agência dos Correios”. Embriagado por aquela overdose de informações, perdido, invadido, tonto, fui para o Partido. Para reclamar, protestar. Dentro do Partido, sinto-me embriagado. O silêncio do local proporciona um estado de leveza à minha alma, antes poluída por informações belarminas. Ali dentro não vejo propaganda do Grande G. Determinação do presidenciável proíbe propaganda partidária dentro de seus domínios. O Partido é minha pousada. Fico ali, com a militância silenciosa, meu resort. O uso de televisão e jornal é proibido dentro daqueles domínios, para não estressar os aliados com o excesso de anúncio belarmino. O estatuto orienta a mídia belarmina somente fora dos diretórios. Programa de saúde mental planejada pelo próprio Grande G. No interior do Palácio, a mesma determinação, para preservar os fiéis servidores. Aos infiéis, propaganda partidária maciça. Uma garota simpática aproxima-se e, com absoluta ternura, faz o convite providencial: “Deseja filiar-se? Ganha o direito de ficar aqui pelo tempo que quiser”. Sem titubear, levanto e abraço a mulher, chorando desesperadamente: “Quero! Quero! Quero!”. Livre, solicito o reboque do meu carro para o estacionamento do Grande Partido. Livre como um pássaro, em voo, nem para a direita, nem para a esquerda. Trajetória retilínea.


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