Carceragem

Escrevia sem parar, sob a supervisão da gerente. Ela queria o texto para o final do dia. Já são 9h20 da noite. Desde as 9h45 eu redigia. O cliente pediu a carta no início da tarde, mas fez alteração encima de alteração. Eu, confuso, tento corrigir o texto alterado diversas vezes. Um quebra-cabeça. Tento juntar o que o cliente pediu com o pouco de coerência da campanha. Agora, reescrevo o quarto texto enviado pelo cliente e o quinto reescrito pela gerente. Sigo, concentrado e atordoado. Confiro meu saldo, o dinheiro não caiu. Agora, 11h15. O cliente não aprova. O dinheiro não cai. 11h45. O cliente resolve jantar. O dinheiro não cai. A empresa avisa por zap-zap que o pagamento vai entrar na conta só na segunda. E fim de papo. Bate meia-noite. Tontura, paranoia. O cliente aprova o texto. Vou comer uma rabada. A morena da PUC aparece no meu Messenger. E pergunta: “Por que você sumiu?”. Respondo sem pensar: “Estava na carceragem”. Caminhando pelas ruas, cheguei em casa. Dormi. O sono não liberta o meu espírito aprisionado. Dormi para a morte. O dinheiro entra na segunda e vai para as custas do funeral. A morena envia outro zap-zap: “Você sumiu de novo, bonitinho. O que aconteceu?”. Ficou sem resposta.


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