Levitação

O relógio toca, toca. Levanto com morosidade. Lembro que é dia daquilo. Visto a bermuda, camiseta, meia e tênis. Tiro o RG da carteira e enfio no bolso. Ansioso, pego um pedaço de pão. Minha refeição no café da manhã resume-se àquilo. Saio de casa e vejo o sol iluminando o domingo. Sem treinar desde que comecei a trabalhar na agência (maio), ou seja, seis meses, penso: “Isso é uma loucura”. Mas sigo em frente a passos largos. Passo pela arcada da pista de atletismo, coloco a camisa P que me sobrou. A organização esqueceu que meu tamanho é GG. Mas estranhamente ignoro a lambança. Extremamente calmo, prendo com alfinetes o meu número 164. Aqueço e depois me posiciono. Dada a largada, volto a sentir o êxtase de correr. Primeira volta, 8’30″, segunda, terceira, quarta e quinta, média de 10’15″. A última volta: não percorrida. Erro de avaliação. Percorri cinco, não sabendo que eram seis. Mas, mesmo assim, fiquei satisfeito, porque não suportava mais. Meu físico sedentário até completaria a sexta volta de um km e poucos metros, mas eu me arrebentaria todo. Com o kit de frutas na mão e o suco na outra, desabei no gramado. Comendo como um louco, alucinado com a corrida, vejo a aproximação de alguém. Um senhor de 73 anos pede licença para falar. E sugere: “você precisa de inhame”. “Como?”, pergunto ao velho. “O inhame vai resolver esse seu problema, no final da prova. Essa sensação de fadiga. Você teria uma câimbra, se continuasse”. Simpático, recomendou bater o alimento com banana e leite no liquidificador. Agradeci. Fiquei mais alguns minutos. Calculei meu tempo total, percorridos 7,5k: 64’00″. Tempo medíocre. No ponto de saída do local do circuito, o menino do ponto de apoio recolhia os copos de água. Ele me incentivou a chegar ao final. Cheguei e falei: “Cara, não consegui. Mesmo assim, obrigado pela força”. Alegre, retrucou: “Você levantou da cama e veio. Chegar aqui já foi uma vitória”. Fiquei sem palavras. Ele tem toda a razão. Minutos depois, deitei, dormi. No sonho, voltei a correr, até flutuar, parar no ar e levitar. Valeu a pena.


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