Barbitúrico

Falava demais, me irritava demais. Lembrei de um remédio receitado pela Dra. Cacilda. Um barbitúrico, com nome de aplicativo de mensagem. Acabei com a Sheila, por WhatsApp. Disse ao Ruan que o trabalho estava uma bosta. E me declarei à psicóloga. Eu me transformei em um Mr. Sincero e estava no rumo de um “sincerocídio”. Decisão firmada, assim que cheguei em casa, abri a caixa do remédio. Tomei um comprimido às 23 horas, com a esperança de que minha euforia cessasse. Com a vontade e fé de que parasse de falar… Dormi. Falava no púlpito a milhares de pessoas. A plateia não reagia, nem com sorriso, nem com aplauso, nem com vaias. A plateia estava imóvel, praticamente morta. No final, uma amiga de Sorocaba (uma repórter loira e simpática) veio até mim, mas passou reto. Cumprimentou uma pessoa atrás de mim e fingiu que não me conheceu. Acordei. Com muita dificuldade. No dia, a plateia real me ignora também. Todos me ignoram. Euforia zero. Depressão a mil. Até que, de repente, a diretora sorri e pisca. Depressão zero, euforia a mil. O remédio não funcionou. Comecei a beber muita água, para dissolver o efeito da droga. Conforme o efeito passa, as pessoas me enxergam. O remédio era um feitiço, que virou contra o paciente. Voltei a poder a falar. Mas não falei. Voltei a poder agir. Mas não tomei nenhuma atitude. Dias depois, o grupo fez comentários a meu respeito. Soube por um infiltrado de minha confiança. Falaram que perdi aquele comportamento ousado e invasivo e adquiri as qualidades de um trabalhador discreto e equilibrado. Falaram mais… que agora sou distante e excessivamente reservado. Como é? Excessivamente? Não quero saber. Melhor excessivamente quieto do que excessivamente eufórico (chato). Resolvi me distanciar do grupo. E de todos. Agora escrevo sem parar sobre meus episódios maníacos e depressivos do passado. Agora sou reservado, excessivamente. Sem remédio. Sem as pessoas. Comigo apenas, confiante sempre.


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