Ponto de decisão

Quando Eduardo viu que seus planos mais importantes minguaram, ele perdeu o controle de seu destino. A carreira de roteirista foi pelos ares, depois que a mulher do magnata o ignorou. Apesar do portfólio razoável e o talento para a coisa, o repórter sucumbiu. Perambulou pelas ruas e vielas da cidade, procurando um lugar ao sol. Resistente à mudança, preferiu fingir que nada alterou, que os tempos não haviam mudado, que ainda tinha chances de obter sucesso por algo que ficou arquivado no passado. Obcecado pelas glórias passageiras que passaram, não enxergava as chances factíveis do momento presente. Mulheres, empregos, jobs interessantes, cursos e atualizações recusados, oportunidades perdidas. O analista, impaciente, indaga: “O que você quer? Repito: O que você quer? Responda logo”. Atônito, o jovem não disse uma palavra. Teve vontade de falar várias coisas: livro vermelho, roteiro de aventura, crônica baseada no real, artigo literário, reforma moral, curso de redação e revisão, estudar para concursos. Colapso. Confusão. “Deixa para a próxima. O tempo acabou. Entro em férias e volto só daqui a três semanas. Pense a respeito”, vociferou o psicanalista exigente. Cumprimentou o discípulo de Freud e, após vagarosos passos, o escritor aproximou-se da secretária e murmurou: “Reforma”. Ela fez cara de espanto e perguntou: “O que disse?”. Repeti a palavra com outras: “Avise o doutor que o paciente Eduardo passou este recado. Fechei para reforma. Reforma moral. Não volto mais”. A funcionária preocupou-se. Ligou para o analista, que ligou para o jornalista, que mandou o analista a P.Q.P. Um tentou se reconciliar com o outro, mas o outro não perdoou aquele um. Não se conformou com o discípulo de Freud. Perguntar o que ele quer é o fim dos tempos. Indignado, decidiu conhecer a pessoa que resolveria o problema do seu destino: ele mesmo.


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